Quando jogar deixa de ser apenas diversão
Compreender a dependência de jogos online
Jogar jogos online pode ser uma forma de entretenimento, de socialização e até de relaxamento. Para a maioria das pessoas, este tipo de jogos fazem parte do quotidiano sem que constituam necessariamente um problema.
No entanto, para algumas pessoas, o jogo pode, aos poucos, começar a ocupar um espaço cada vez maior na sua vida, tornando-se difícil controlar o comportamento mesmo quando começam a surgir consequências negativas.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece a gaming disorder - ou perturbação do jogo - como um padrão de comportamento caracterizado por perda de controlo sobre o jogo, aumento da prioridade atribuída ao jogo relativamente a outras atividades e continuidade ou intensificação do comportamento apesar das consequências negativas. Para que possa ser considerado um diagnóstico, este padrão deve provocar um prejuízo significativo no funcionamento pessoal, familiar, social, académico ou profissional e, habitualmente, estar presente durante pelo menos 12 meses.
Isto significa que o número de horas passadas a jogar, isoladamente, não é suficiente para determinar a existência de uma perturbação.
O que pode estar por detrás do jogo excessivo?
Por vezes, o problema não está apenas no jogo.
Os jogos online podem proporcionar sensação de competência, pertença, reconhecimento, desafio ou escape de experiências desagradáveis. Para algumas pessoas, jogar pode tornar-se uma estratégia utilizada para lidar com ansiedade, solidão, frustração, baixa autoestima ou outras dificuldades emocionais.
Por isso, retirar simplesmente o acesso ao jogo pode não resolver o problema. É necessário compreender qual é a função que o comportamento está a desempenhar e o que acontece quando essa estratégia deixa de estar disponível.
Quando o jogo começa a substituir progressivamente outras áreas importantes da vida, podem surgir alterações no sono, abandono de atividades, dificuldades académicas ou profissionais, conflitos familiares, isolamento social e sofrimento psicológico. A própria OMS destaca a possibilidade de consequências ao nível da saúde física, psicológica e do funcionamento social associadas a padrões problemáticos de gaming.
Porque é importante um acompanhamento psicológico adequado?
Uma intervenção eficaz não deve resumir-se a “retirar os jogos” ou estabelecer um número rígido de horas.
É importante realizar uma avaliação individualizada e compreender:
o padrão de utilização dos jogos;
as situações que desencadeiam ou intensificam a vontade de jogar;
os pensamentos e emoções associados ao comportamento;
aquilo que a pessoa encontra no jogo e que pode estar ausente noutras áreas da sua vida;
o impacto do comportamento no sono, estudos, trabalho, relações e atividades;
a existência de outras dificuldades psicológicas que possam estar associadas.
O objetivo não é necessariamente deixar de jogar
Um acompanhamento psicológico adequado não precisa de partir do princípio de que a única solução é eliminar completamente os videojogos.
O objetivo pode ser ajudar a pessoa a recuperar capacidade de escolha e equilíbrio, desenvolvendo estratégias alternativas para lidar com emoções difíceis, reorganizando rotinas, recuperando outras fontes de prazer e competência e aprendendo a reconhecer situações de maior risco.
No caso de crianças e adolescentes, é igualmente importante envolver a família. Os limites podem ser necessários, mas funcionam melhor quando são acompanhados por comunicação, consistência e compreensão do que está a sustentar o comportamento.
Porque a questão nem sempre é:
“Quantas horas joga?”
Pode ser muito mais importante perguntar:
“O que está a acontecer na vida desta pessoa para que jogar tenha passado a ocupar um lugar tão central?”
Quando jogar deixa de ser uma atividade escolhida e passa a parecer uma necessidade difícil de controlar, procurar acompanhamento psicológico pode ser um primeiro passo importante para recuperar equilíbrio e bem-estar.